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Tag Archives: war journalism

 

 

O seu nome completo é Paulo Manuel Pires Machado Moura Antunes. É jornalista e escritor.

 

Nasceu no Porto em 1959, estudou história na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, depois jornalismo, na Escola Superior de Jornalismo. Em 1989, começou a trabalhar como jornalista no Público, depois de ter dado aulas de história numa escola secundária. Foi correspondente nos Estados Unidos da América entre 1993 e 1995, primeiro em Washington e depois em Nova Iorque. Em 1997, começou a trabalhar para a revista Pública, um suplemento do jornal Público. Tornou-se editor da mesma publicação de 1999 a 2001.         

 

Nos últimos 15 anos, Paulo Moura tem escrito várias reportagens e crónicas sobre cultura e média. Foi enviado especial na Algéria, Angola, Jugoslávia, Tchetchénia, Nigéria, Kosovo, Afeganistão e Iraque.

 

Actualmente, é também professor na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa. Paulo Moura já publicou quatro livros, Passaporte para o Céu (2006), O Fim das Miragens (2008), O Segredo da Cartuxa (2007) e 1147 – O Tesouro de Lisboa (2006).

 

Ganhou diversos prémios, dos quais se destacam o Grande Prémio de Reportagem da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (1994), o Grande Prémio de Reportagem Escrita do Clube Português de Imprensa (1996, 1998 e 2001), o Prémio de Jornalismo “O Futuro da Europa” atribuído pela Comissão Europeia (2001), o “Prémio Imigração e Minorias Étnicas: Jornalismo pela Tolerância”, do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (2003) e o primeiro Prémio «Jornalismo Contra a Indiferença» da Fundação AMI (2005).

Paulo Moura vive no Estoril e tem um filho de 20 anos que quer ser cientista.

Entrevista de Nuno Joya de Noronha, publicada a 25 de Outubro de 2008.

 

Há quem abra o jornal à procura dos seus textos. Há quem goste e quem não aprecie. Alguns conhecem-no há 6 meses, outros há 15 anos, há quem não o conheça. O que é certo é que é seguido por muitos profissionais do jornalismo e admirado por muitos estudantes da área das ciências da comunicação. Paulo Moura conta-nos em entrevista os momentos mais marcantes que viveu enquanto jornalista, o porquê da investigação da Maria das Dores, fala-nos da incompreensão que sente em Portugal e revela-nos os seus objectivos profissionais. O repórter do jornal Público explica-nos abertamente algumas das opções que foi tomando ao longo da sua vida.

 

Alguma vez pensou que podia morrer?

Sim, algumas vezes, em guerras e situações de conflito. Mas a verdade é que não é assim tão perigoso como muitas vezes se pensa. Um jornalista que trabalha como repórter de guerra tem de calcular os riscos, tem de ter um trabalho muito metódico por forma a não torná-lo demasiado perigoso, porque senão fazia-se uma só vez e nunca mais se vivia. Se eu quero voltar lá tenho que me manter vivo, para voltar e contar. Além disso, um jornalista não vai correr riscos desnecessários e os riscos são calculados. Por outro lado, as situações geralmente não são de perigo constante. Isso é um mito que existe. Há algumas situações em que, de facto, existem perigos e há outras em que não vale a pena correr certos riscos.

 

Mas já viveu algum momento em que sentiu que havia perigo e era de alguma forma necessário contorná-lo?

Sim. Eu estava na guerra do Afeganistão, acompanhando a Aliança do Norte, e íamos avançando para sul, desde Kadja Baudin, à medida que o exército ia conquistando território até chegar a Cabul. Nessa altura os americanos ainda não se encontravam no terreno. Eu estava no acampamento da Aliança do Norte e, precisamente no dia em que Cabul foi conquistada, embora eu estivesse integrado num grupo que estava mais atrás, a Aliança do Norte decidiu ir combater para a linha da frente, que é simplesmente uma zona de soldados com metralhadoras que disparam para o outro lado do monte, onde estão os soldados taliban. Perguntaram-me se eu queria ir e houve mesmo vários jornalistas que foram. Eu tinha a consciência de que era muito perigoso. Se eu fosse para ali, podia apanhar um tiro. Então, eu pensei “Hoje é o dia da reconquista de Cabul, portanto o texto principal do jornal vai ser esse, logo não vale a pena arriscar a vida. Afinal dum possível texto meu só sairia um pequeno excerto”. Não fui para a linha da frente só por causa disso.

 

Mas concorda com a ida dos jornalistas para a frente de combate?

(Pausa)

 

Acha que vale a pena?

Sim, acho que vale a pena. Mas há uma questão aí que é uma figura inventada pelos americanos na última guerra do Iraque que é o jornalista embedded. No fundo é o jornalista que transmite a guerra em directo, que vivem com a unidades militares e estão com eles em todos os momentos, vão inclusivamente para as batalhas, para a linha da frente. Contudo, esses trabalhos têm certas restrições. O jornalista tem de se comprometer a não divulgar certas informações que possam ser comprometedoras e perigosas para a unidade. Por exemplo, não podem dar a localização ou nome das pessoas. Neste tipo de jornalismo, há muito para discutir. Eu, particularmente, não tenho nenhuma opinião sobre isto, mas acho que com esse tipo de jornalismo deve-se ter algum cuidado.

 

Mas já tentou ir embedded?

Sim, eu tentei ir embedded com os americanos. Mas não consegui. Havia muitos jornalistas, de todo o mundo, e só foi quem eles quiseram. Eu acabei por ir embedded mas informalmente, portanto fui para lá e juntei-me a quem eu quis. Mas na maioria dos casos, essa condição não deve ser aceite, porque afinal o jornalista está a trabalhar com restrições. Dessa forma, o jornalista nunca pode cobrir dois lados ao mesmo tempo. É normal que o facto de se estar de um lado leve o jornalista a estar mais próximo afectivamente do grupo com quem se está. Só se deve recorrer a este tipo de situação quando não há outra alternativa e a única forma de obter informação é esta. O caso mais conhecido disto passou-se na primeira guerra do Iraque. Toda a gente teve de sair de Bagdade, os americanos deram ordem de saída para os jornalistas, mas houve quem ficasse. Foi Peter Arnett da CNN. Este foi um, porque depois soube–se de outros. Contudo, a CNN transmitia o que as autoridades iraquianas permitiam, porque estas viam tudo previamente e censuravam. Isto foi muito discutido. Mas esta era, de facto, a única forma de se ver as imagens do que se estava a passar lá.

  

Já sentiu de alguma forma que lhe foi vedado o acesso a certas informações?

Sim, claro. Isso é normal. Há condições que são impostas ao jornalista, quando ele se sujeita a trabalhar em certas circunstâncias, que ele deve aceitar ou não. Mas a partir do momento em que as aceita, como forma de aceder a informações, tem de as cumprir. Por outro lado, dificultarem o acesso de uma forma gratuita à informação é algo muito comum. A informação institucional que se dá é também estudada de uma forma propagandística. Na guerra sente-se ainda mais isso, porque as fontes institucionais tentam controlar a informação que sai mas chega-se a uma altura em que nada é como se previa, é a loucura total e as informações vão saindo.

  

Qual foi a situação mais engraçada em que se viu como jornalista?

Uhmmm, mais engraçada? Não sei.

  

Não se lembra de nenhuma? Alguma situação em que nunca pensou estar?

Não, não me consigo lembrar…

 

E a situação mais complicada?

É difícil responder a isso. Às vezes as situações mais difíceis, mais perigosas não são bem o que parece. Por vezes, não é uma guerra que proporciona as situações mais perigosas. Mais perigoso é quando o jornalista perde o controlo do que está a fazer. O jornalista é sempre um intruso, aparece vindo de fora. Isso pode provocar desconfiança nos intervenientes. Muitas vezes, as pessoas pensam que o jornalista é um espião ou que está feito com o outro lado… Há sempre desconfiança em relação à figura do jornalista. Por outro lado, há sempre, teoricamente pelo menos, interesse em que esteja um jornalista presente. Afinal, ambas as partes num conflito estão convictas de que têm razão, portanto querem que esteja lá a testemunha, o jornalista, que depois divulgue ao mundo e que demonstre que eles têm, de facto, razão. Mas, geralmente, é sempre bem vista a presença do jornalista. Contudo, isso mudou nos últimos tempos com o fundamentalismo islâmico em que a figura do jornalista é vista como inimigo. O jornalista, no fundo, acaba por representar a liberdade de expressão, o mundo ocidental e todos os seus valores de liberdade. Dessa forma, é visto como um alvo a abater. Hoje em dia, os jornalistas são agredidos e raptados não porque são apanhados, é porque esses ataques são dirigidos propositadamente a eles. Os fundamentalistas islâmicos querem eliminar os jornalistas porque os consideram inimigos.

 

Mas e a si, já sentiu que era um alvo a abater? Já sentiu que estava na mira de alguém?

Sim, sim. Uma vez fui bombardeado. Foi um bombardeamento só para mim e para um grupo de jornalistas que estava comigo. Foi na guerra do Kosovo, numa aldeia da Albânia junto à fronteira. A aldeia estava vazia, porque toda a gente tinha fugido, mas os sérvios continuavam a bombardeá- -la. Na altura, os nossos guarda-costas tinham fugido, porque as coisas começaram a piorar. Nós ficamos sozinhos, sem poder sair dali, e os sérvios divertiram-se a bombardear-nos. Cada bomba que caia rebentava uma casa ao nosso lado, caiam morteiros a uns metros de nós.

 

Como é que conseguiu gerir as emoções nessa altura?

Na altura não havia outra maneira. Nós estávamos ali e cada um safava-se como podia. Uns atiravam-se para o chão, outros faziam coisas que tinham visto nos filmes, outros faziam o que tinham aprendido em treinos, alguns entravam em pânico… Se tivéssemos previsto isto, nunca teríamos ido para lá, mas são coisas que acontecem. Por exemplo, outra situação que me aconteceu foi por causa de um trabalho que fiz sobre os emigrantes ilegais provenientes de Marrocos. Escrevi um livro sobre isso, fiz um documentário para televisão.

 

Está a falar do livro “Passaporte para o céu”?

Sim, esse mesmo. Nas primeiras vezes que fui a Marrocos, foi com o fotógrafo Nacho Doce e depois com um cameraman. Mas estava eu na Nigéria com o Nacho e, de repente, as pessoas, muito eufóricas, começaram a falar entre si línguas africanas, que eu não percebia. Entretanto, ouviam-se gritos até que eu percebi que eles achavam que o Nacho não era nada um fotógrafo espanhol, mas sim um espião marroquino, porque supostamente o tinham visto uma vez em Tânger. Começaram a dizer que o queriam matar, geraram-se discussões entre uns e outros. Nós não podíamos fugir, porque estávamos ali no meio deles na selva. Foi muito complicado para mim convencê-los de que o Nacho era de confiança. Vi-me ali numa situação complicada, quase de perda de controlo, sem saber o que fazer.

 

Alguma vez esteve preso?

Sim, foi logo na minha primeira grande reportagem internacional num conflito no meio da Argélia. Tinha acabado de entrar para o Público, ainda era estagiário.

  

Estagiário?

Sim, era. Mas fui com um série de políticos como Pacheco Pereira, Miguel Beleza… Fui nessa viagem, de estado, e fiz uma entrevista, que foi uma sorte ter acontecido, a George Habash, o líder da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). Na altura ele era o comunista mais procurado no mundo. Logo depois, quando rebentou a confusão na Argélia no ano seguinte, como já lá tinha estado, reenviaram-me para lá. Tinha havido uma abertura do regime, realizaram-se eleições livres e logo na primeira volta o Partido Fundamentalista ganhou com dois terços dos votos. O governo cancelou entretanto as eleições, proibiu o partido e gerou-se a confusão, o conflito e as manifestações. Eu andava por lá, misturado com eles e até rezava nas mesquitas. Depois fui preso, juntamente com um repórter francês e outro espanhol. Fiquei detido um dia e no dia seguinte fui expulso para Portugal. Foi logo a primeira aventura.
Mas não foi expulso por rezar em mesquitas?
Fui expulso porque estava numa situação ilegal. Andava misturado com a população local, enquanto que todos os jornalistas já tinham sido expulsos. O argelino que andava connosco também foi preso e foi espancado.

Na sua primeira experiência internacional, ainda como estagiário, viajou juntamente com o estado. Acha que o governo português apoia os jornalistas que vão para o estrangeiro para informar o país sobre o mundo?

Eu nunca tive apoio nenhum, mas também não acho que o estado deva apoiar os jornalistas que estão no estrangeiro. Isso depende, se se trabalha para um órgão de informação do estado ou não.

  

E os órgãos de comunicação apoiam os seus jornalistas?

O problema dos órgãos de comunicação é que não têm dinheiro. Por outro lado, quanto mais o órgão tenta ser de referência, mais dificuldades financeiras tem. Como os órgãos não têm meios económicos, acaba-se por fazer um jornalismo, às vezes, mau e muitas vezes perigoso. Fiz muitas viagens no Iraque e no Afeganistão sem condições nenhumas. Ainda hoje (24 de Outubro de 2008) escrevi uma crónica no Público. Quando estava no Iraque, eu era o único que não tinha equipamento anti guerra química. Quando soavam os alarmes eu ficava com a minha roupa e todos os que tinham fatos olhavam para mim, eu era uma espécie de cobaia: se eu estivesse vivo era porque o ar estava respirável. Portanto, eu não levava nenhum equipamento, nem mesmo à prova de bala. A sorte é que não havia nenhumas armas químicas.

 

É um aventureiro, então?

Não sei. Realmente vai-se muito à aventura. No fundo, eu queria ir, gostava de ir, achava que era interessante, mas se tivesse melhores condições também não teria recusado. (Risos)

 

Recuando uns anos, cursou história, deu aulas e entretanto licenciou-se em o jornalismo. Porquê?

Desde miúdo, sempre quis escrever, ser jornalista ou escritor. Queria fazer principalmente duas coisas: viajar e escrever. Quando eu fiz história, fui para essa área porque achava que precisava de saber mais. Depois fui dar aulas e gostei muito desse primeiro ano. Entretanto, abriu o curso na Escola Superior de Jornalismo e matriculei-me lá. No ano em que acabou o cursou de jornalismo, abriu o Público. Concorri para lá e já lá estou há 19 anos.

 

Então o jornalismo internacional surgiu porque gostava de viajar?

Sim, sempre gostei de viajar. Quando fui para o Público, entrei logo na secção internacional.

 

Foi professor de história, agora é professor de jornalismo. Prefere dar aulas ou ser jornalista?

Eu gosto das duas coisas. Eu sou jornalista. Só dou aulas porque dou aulas de jornalismo, caso contrário não faria sentido. Eu no fundo falo na minha experiência enquanto repórter, falo daquilo que aprendi. Sempre quis ser jornalista ou pelo menos escritor. Escrever mais livros é aquilo que eu quero fazer.

 

Está a falar de jornalismo literário?

Sim, de jornalismo literário.

 

Antes de entrarmos nesse campo, estivemos à conversa com alguns dos seus alunos da Escola Superior de Comunicação Social. Descrevem-no como um professor “estimulante”. O que é que acha que os estimula em si?

(Risos) Não sei. Tem que lhes perguntar isso a eles.

  

Mas acha que são as histórias que conta que lhes despertam tanto interesse em si?

O jornalismo internacional e de guerra é sempre uma coisa que desperta interesse. Envolve aventura, implica ir para um sítio perigoso, exótico… Portanto, há todo um lado de aventura que eu tento explorar. O papel do jornalista é não só informar, como também obrigar as pessoas a ler, a pensar, a reflectir e a sentir coisas. Há duas formas de divulgar essas estórias, que vão desde a exploração desse lado aventureiro, até ao uso de uma linguagem suportada em recursos literários. É mais agradável ler um texto literário do que um texto convencional, em pirâmide invertida. (Risos) Afinal já ninguém tem paciência.

 

Mas acha que há espaço para o jornalismo literário em Portugal?

Eu acho que sim, que há espaço. O problema é que a maior parte das pessoas ainda não percebeu isso, nomeadamente os editores e directores dos jornais. Alguns sim, já se aperceberam das suas potencialidades. O jornalismo literário pode ser uma forma dos jornais saírem da crise, de levarem as pessoas a ler. Noutros países, há muitos exemplos de jornais, jornais diários até, que adoptaram essa abordagem sobre as coisas e saíram da crise. No fundo, conquistam-se e fidelizam-se leitores. As pessoas, cada vez mais, querem ter uma visão mais profunda da realidade. O DocLisboa é um exemplo disso. Estava ontem neste festival de cinema não ficcional um filme sobre Walter Thompson, que é precisamente um jornalista literário que se suicidou há 3 anos, e os bilhetes estavam completamente esgotados. Todos os cinemas de Lisboa estão, neste momento, cheios, é inacreditável esta adesão. As pessoas começam cada vez mais a interessar-se pela realidade.

 

O que é que acha do jornalismo que é feito em Portugal? Há alguma coisa em falta?

Há vários aspectos a considerar. Por um lado, são feitas coisas muito boas, há muito bom jornalismo neste campo do texto literário.

 

Mas há muita gente a criticar a produção nacional. Acha que não se valorizam os bons aspectos?

Claro. Há muita gente que escreve jornalismo literário de qualidade excelente, mas que muitas vezes não tem audiência. Não há recursos para fazer mais trabalhos, com outro rigor, como muitos desejam fazer. Muitas vezes quem tem esses recursos são aqueles que não os sabem aproveitar. Vêm-se trabalhos, principalmente na televisão, de muito má qualidade. Há um jornalismo muito mau proporcionado pela concorrência desenfreada. O pior disto tudo é que as pessoas não ficam formadas, não aprendem a pensar sobre o seu mundo e formam uma ideia errada do que são os jornalistas, que vão assim perdendo credibilidade.

 

Há então um ciclo vicioso nos Mass Media?

Sim. Hoje em dia as pessoas que se querem informar não precisam de recorrer a um jornalista. Vão à Internet e há lá informação, demais até. Há também milhares de bloguers, que estão cada um na sua terra, onde é difícil o acesso por parte dos jornalistas, a escrever o que se vai passando por lá. A figura do jornalista já não é precisa para nada, vai acabar (risos). Não, no fundo, o jornalismo funciona como um mediador dessa informação, é alguém que selecciona e interpreta, usando das suas capacidades, conhecimentos e rigor ético. O jornalista é o único informador que não tem qualquer interesse por trás. Falo do bom jornalista, do jornalista verdadeiro. Afinal ninguém o pressionou, ninguém o subornou ou convenceu, ele não tem interesse pessoal naquilo, fez apenas a sua avaliação isenta de interesses e com base em conhecimentos. Por outro lado, o jornalismo que se faz na televisão obedece não ao interesse do público, mas sim a interesses de audiências imediatas, da exploração do mórbido, do voyeurismo. Isto pode ter um efeito positivo num primeiro momento, mas a longo prazo o público perde a confiança no jornalista quando este lhe quiser transmitir uma mensagem.

 

O jornalista acaba por ficar mal visto?

Sim. As pessoas querem ver as tais histórias mórbidas, mas depois dizem mal dos jornalistas. Eles acabam por não prestar o serviço na sociedade que deveriam prestar. A longo prazo, quem perde é a sociedade.

Por outro lado, surge aqui um aspecto interessante que é o nome do jornalista. Em Portugal há pouco, e só mesmo na televisão, que é o facto das pessoas acreditarem naquela pessoa, porque a conhecem e já lhe atribuíram credibilidade. Confia-se nela, porque acompanharam a sua carreira. Os jornais deveriam apostar mais nisso, porque possibilitariam a criação de relações mais próximas entre o leitor e o jornalista.

 

E o que é que mudou relativamente ao jornalismo que era feito há vinte anos atrás?

Eu comecei a trabalhar numa altura em que houve uma grande mudança, até mesmo pelo aparecimento do Público. Tinha também surgido um jornal muito interessante que foi O Independente. Era diferente, afincadamente de direita, mas surgiu com um tipo de escrita completamente inovador, criando assim uma nova geração de jornalistas. A comunicação deles era eficaz e mais informal. Atrás deste pioneiros, todos tiveram de se adaptar. Afinal escreviam-se notícias que era coisas absolutamente aborrecidas e institucionais o que obrigou, também no caso do Público, a mudar de paradigma, mesmo ao nível da linguagem. Portanto, um dos pontos de viragem na história da comunicação foi este. Criou-se assim um jornalismo não só mais rigoroso, como também mais apelativo. Apuraram-se as técnicas de expressão, aprofundaram-se mais os temas, começou- -se a fazer ciência, surgiram os jornalistas especializados em várias áreas como a do jornalismo cultural. Tudo isto surgiu também com o Público e entrou no jornalismo português. Contudo, por causa da crise relacionada com a publicidade houve um grande decréscimo da qualidade dos jornais. Hoje a qualidade do Público não é igual à de há dez anos atrás.

 

É pior?

É pior, sim. Muitos jornalistas saíram, empregaram muitos jovens para lhes pagarem pouco, não há dinheiro para fazer reportagens. Não se faz jornalismo de investigação, ninguém arrisca. Nenhum jornal nos põe a investigar algo durante meio ano, sob o risco de não se conseguir nada.

 

Já editou 4 livros. Muitas vezes é jornalista que tem de fazer uma investigação paralela?

Sim, temos que fazer um trabalho extra, fora do jornal. Mas é muito difícil, porque não há tempo e assim não se fazem coisas com qualidade.

 

E como vai ser daqui a 20 anos?

É imprevisível, porque daqui a 20 anos vai tudo mudar. Se calhar não vai haver jornais em suporte de papel. Ninguém é capaz de prever. Pensa-se que se vai transferir os jornais em papel para os jornais online, e isso vai acontecendo gradualmente. No caso dos meus próprios alunos, é raro aquele que lê os diários.

O jornalismo online é uma mina de potencialidades até mesmo para os jornalistas literários. Apesar de todas as possibilidades de multimédia, não acredito que o texto vá desaparecer. Está provado que as pessoas lêem mais o texto, do que prestam atenção às imagens. Nessa altura toda a gente poderá ter a capacidade de publicar textos. Hoje em dia só os privilegiados conseguem, mas no futuro, se os textos forem bons, qualquer pessoa poderá ser editada.

 

Acha que isso pode arruinar os jornais?

Acho que não. A marca Público, por exemplo, vai existir sempre. Vai estar na Net. Está lá a garantia de rigor e qualidade. O The New York Times é muito isso, pois há mais pessoas no online do que a ler o jornal. A marca tem um peso e as pessoas confiam. É a tal garantia de qualidade. E os meios são múltiplos, desde o vídeo, o som, a fotografia, o texto, enfim e vai ser nisto que se ai apostar. Vai haver certamente menos ruído da marca do jornal. A qualidade vai estar sempre assegurada. As pessoas vão saber o que as espera.

 

 

Partindo agora para outro assunto, porque é que decidiu investigar o caso “Maria das Dores”?

(Risos) Isso foi por acaso. Aconteceu o crime e eu nem sabia, não dei por nada. Quando começou o julgamento é que alguém me perguntou se eu não queria fazer uma investigação, um trabalho sobre o crime. Eu na altura nunca tinha ouvido falar na Maria das Dores. Eu achei logo interessante, é um crime, é o tal jornalismo do Truman Capote, o jornalismo literário, de não ficção. Enfim, são estórias interessantes, porque há o crime e o contexto, a comunidade, o dia a dia das pessoas de um certo meio. Enfim, através de um pequeno acontecimento, pode-se contar toda uma história muito vasta.

 

Como é que começou a investigação?

Fui falar com os amigos, de uns e dos outros. Fui ao local onde a Maria das Dores nasceu. Entretanto, escrevi uma reportagem grande para o Público, para a P2. Depois, uma editora com quem eu estava a trabalhar convidou-me para fazer o livro, para investigar o caso com mais profundidade. Na altura, acabei por me arrepender daquilo que fiz, porque tive de acabar tudo à pressa. Mais uma vez não consegui fazer o trabalho como eu gostaria. Mas eu achei aquilo interessante. Há muita gente que acha que os jornalistas sérios não se envolvem nestes temas. Eu não concordo nada, acho mesmo que deveriam ser só esses jornalistas sérios a tomar conta destes casos.

 

Mas consegue estabelecer algum paralelo entre o caso “Maria da Dores” e o seu trabalho como jornalista internacional?

Sim, eu não acho que exista isso do repórter de guerra. Essencialmente, é o mesmo tipo de trabalho, porque se estás numa guerra ou no caso Maria da Dores, as regras e os princípios são os mesmos, não há uma diferença especial. Não acho que o jornalista deve estar preparado militarmente para a guerra. O jornalista deve sempre primar pela sua segurança. Não acho que deva ter treino militar, eu não concordo com isso. No caso do jornalismo embedded na guerra do Iraque, o exército americano fez exercícios de treino militar com os jornalistas. Eu acho que isso não se deve fazer, porque um jornalista não se deve confundir com um militar, nunca pode estar fardado nem armado nem ter o mesmo tipo de treino. Quando muito, um treino adaptado. Há coisas em que devo concordar, de estrita segurança, do cumprimento de regras, mas fora disso não se deve fazer esse treino militar, porque a reportagem de guerra não é um género específico de jornalístico.

 

Mas Maria das Dores e guerra não combinam.

Eu gosto é de situações em que o ser humano é colocado perante condições extremas, não é propriamente da guerra, porque eu não gosto de guerra, o meu subconsciente impede-me de pegar numa arma, nem sequer fui à tropa. O que me interessa são as situações e as pessoas que sofrem com a guerra. As posições em que são colocadas, como é que reagem, as atitudes negativas e positivas que tomam. Enfim, interessa-me o comportamento do ser humano perante situações que não vive no quotidiano.

 

É então a condição e a conduta humana que o seduz?

Sim, sim, exactamente, são sempre as pessoas que me interessam.

 Há pouco disse que se arrependeu, de certa forma, de ter escrito “O Fim das Miragens” da maneira como o escreveu. Foi importante ou não o lançamento do livro para a sua carreira enquanto jornalista?

Não sei. (pausa) Se foi mau para a minha carreira? Eu não sei, tenho dúvidas. Há muita gente que acha que sim, que eu não devia ter feito aquilo.

 

Mas então acha que foi importante?

Para a minha carreira, isso não me interessa. É irrelevante. Não me interessa. Eu disse que me arrependi de certa maneira, porque eu não pude fazer aquilo como eu gostaria de ter feito. Contudo, não tenho nada contra este tipo de temas. Todos os assuntos são dignos de interesse, depende da abordagem que se fizer. Essas temáticas consideradas mais de fait-diver, dentro do cor-de-rosa, de sociedade podem ser abordadas dentro desses interesses, mas podem também ser estudadas de uma forma mais profunda. Muitas vezes, são as melhores estórias para se contar.

 

No fundo são as pessoas, não é?

Sim. É falar das pessoas, da condição humana, da visão de um país. Enfim, eu pretendia falar das miragens e das ilusões que se vivem, que no fundo fazem parte da história de Portugal. Afinal, o que está no livro reflecte um bocadinho de toda a gente… (pausa) ou de muita gente. É isso que me interessa, o universal, não é propriamente a situação concreta daquela pessoa. (pausa) Por acaso vai ser libertada agora. (pausa) Não, o julgamento vai ser esta segunda-feira. Mas não vai sair, porque o colectivo de juízes marcou a audiência muito rápido, já para segunda-feira.

 

Vai lá estar?

(pausa) Se calhar sim. (risos) Tenho curiosidade para ver, quero rever aquela malta.

 

Está a escrever algum livro?

Estou a fazer muitas coisas, mas é tudo segredo. (Risos)

 

Mas está a escrever algum livro de jornalismo literário…?

Sim, mas neste momento não sei qual deles vai sair primeiro. Mas há um que eu já estou a concluir que é na sequência daquele que eu fiz sobre os emigrantes ilegais que vinham de Marrocos. Este é sobre os portugueses que iam para lá, entre as décadas de 20 e 60, para trabalhar na pesca. Muitos desconhecem este facto, mas ia imensa gente em barcos clandestinos. Alguns eram enganadas pelos mafiosos, outros naufragavam… Enfim, o meu livro é à volta isto.

 

Mas para quando?

Não sei precisar!

 

Para o ano?

Sim, para o ano.

 

Está a escrever outros livros?

Sim, tenho mais três projectos, mas não sei qual vai avançar primeiro. Estou a fazer várias coisas ao mesmo tempo.

  

Já ganhou vários prémios. Que significado têm para si?

Não sei. É o reconhecimento de um trabalho. Para mim, muitos destes prémios só são importantes porque não há outro tipo de reconhecimento. Muitas vezes o próprio jornal onde se trabalha não o faz. Ninguém te diz que o trabalho foi bem feito, que valeu a pena. Ninguém reconhece o esforço de fazer um trabalho como foi o dos emigrantes, em que se tem de ir para o meio da selva em Marrocos. Mas, no fundo, as pessoas pensam que isto é um privilégio. As pessoas pensam que há jornalistas que têm uma vida muito chata, mas há outros que se divertem, viajam… Por um lado é verdade (risos), uma pessoa diverte-se muito, mas por outro a pessoa passa por muitas durezas, nem é o risco que se corre, é o desconforto, os sacrifícios, a fome, não se ter onde dormir ou tomar banho… São situações de muito desconforto que muita gente não está disposta a passar, mas depois acham que é um grande privilégio ter estado lá. Por causa disso, não se reconhece devidamente o esforço de alguns jornalistas.

 

Esse é o papel dos prémios?

Sim, o prémio é o reconhecimento material de alguém que viu vários trabalhos, que avalia o melhor e que nos diz “valeu a pena”.

 

Recorda algum prémio em especial?

Há uns que têm mais importância que outros, mas isso tem a ver com temas. Ser reconhecido com o prémio AMI, no fundo ligado a toda esta temática e que a mim me interessa mais, tem algum valor. Depois há os prémios internacionais. Fui finalista do prémio Lettre Uliysses, no qual fiz parte de uma short list onde constavam grandes nomes do jornalismo e autores de best sellers vendidos em todo o mundo. Estar neste lista foi especial para mim, apesar de que o prémio foi ganho por um chinês, para grande desgosto meu (risos). Foi especial porque o prémio chama-se The Art of the Reportage e é o único prémio mundial de jornalismo que existe, se bem que neste momento está suspenso por falta de verba.  

 

A nomeação foi o mais importante.

Sim, claro, porque estava na lista. Contactei com várias pessoas de todo o mundo, que afinal fazem o mesmo que eu. Aqui, em Portugal, as pessoas que fazem o trabalho que eu faço em jornalismo sentem-se um pouco isoladas, mas depois percebe-se que há uma comunidade no mundo inteiro. Nos Estados Unidos da América, principalmente, porque há toda uma escola de jornalismo literário: mestrados, cursos, doutoramentos… No Brasil também! Passar ao contacto com todas estas pessoas que fazem este trabalho é fantástico. Afinal são repórteres que estão na mesma onda, têm a mesma preocupação, sofrem da mesma incompreensão.

 

Sente-se incompreendido em Portugal?

É claro, completamente. Este tipo de trabalho não é reconhecido, mesmo no meio jornalístico. Alguns acham piada outros dizem que é uma maluqueira, dizem que temos a mania que somos artistas e que queremos ser diferentes. O nosso trabalho não é valorizado nem levado a sério. Ninguém sabe o que é jornalismo literário nem as suas regras. Eu acho que se pensa que o jornalismo literário são uns tipos que inventam umas coisas. Já me disseram, inclusive, como se fosse um elogio “Eh pá, tu ficcionas bem”.

É claro que me sinto incompreendido cá.

 

Está prestes a completar 20 anos de carreira no jornalismo. Que comentário é que lhe apetece fazer sobre o seu percurso?

O que me preocupa é o que eu quero fazer no futuro. Aliás, nunca tinha feito as contas dessa coisa dos 20 anos de carreira. Mas não, não faço nenhuma espécie de contabilidade das coisas que fiz até agora, nem acho que tenha nada assim de muito importante para contabilizar ou contar.

 

Então o que é que quer fazer? 

Quero principalmente escrever livros, o que é muito difícil, porque não há condições para ao fazer. Não há nenhuma editora que me dê um ano para preparar, estudar um assunto e fazer um livro. Nenhuma editora me propõe isso, embora eu tenha muitas atrás de mim. Nem a mim, nem a ninguém. Ninguém investe em nada, ninguém arrisca minimamente. Mas depois se aparecer um livro que se torne num best seller, ficam todos contentes. A partir deste ano lectivo, conseguimos fazer um protocolo com a D. Quixote e a cadeira de Jornalismo Literário da minha escola (Escola Superior de Comunicação Social), em que os melhores trabalhos poderão ser estudados e aprofundados e posteriormente publicados em livro. Os jornais deveriam apostar também nisto e não em notícias que não têm nada de investigação, nenhum interesse relevante.