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Tag Archives: Licenciatura

Por Nuno Joya de Noronha
 
            Nos tempos que decorrem ou rolam, depende de si, leitor, os alunos só pensam em sair de casa, viver fora das saias da mãe e/ ou sair debaixo dos olhos do pai. “Oh mãe, se não entrar naquilo que quero, eu depois, no ano seguinte, mudo, não se preocupe!”. As mães, como se pudessem alguma vez na vida deixar de se preocupar com os seus bebés, engolem em seco, torcem o nariz e vá lá, até o pescoço. Levantam-se-lhes as bochechas e, simultaneamente, encolhe-se-lhes a testa, mas não há nada a fazer: a licenciatura está na moda e pronto!

Hoje em dia, tirar uma licenciatura é bonito, fica bem, os papás gostam, os vizinhos invejam e os avós incham de orgulho, “ ai que o meu menino é tão inteligente”!

Por outro lado, agora que o estado comparticipa tudo, ajuda aqueles que precisam e até aqueles que não precisam mas fingem precisar, todos os jovens vão para ou vão parar à Universidade. É bom, é realmente muito bom, chega a ser uma incontestável verdade! Mas daqui a uns tempos não temos operários da construção civil ou mesmo o tão agradável e celestial pão que vem parar à porta de nossas casas, por meio de alguém que nunca vimos, mas a quem passamos cheques no final de todos os meses, vai deixar de nos brindar com o seu fabuloso e intenso cheiro matinal.

Ora bem, isto dá que pensar: no futuro, os quadros profissionais de alto gabarito (ou não) vão estar preenchidíssimos, para não dizer preenchidérrimos, porque não existe. Mas seguindo este raciocínio, vamos deixar de ter os nossos habitats naturais, obras públicas, porque ninguém estará habilitado para as construir… Na verdade, a mão-de-obra estará tão cara, pela hora da morte, se nessa altura ainda existir a expressão, que o Orçamento de Estado deixará de suportar essa tamanha despesa. O nosso governo corta em tudo!

Mas como está na moda ser licenciado, afinal é chique, o importante é tirar esse grau académico. Doutores Albanos, Beatrizes, Cristinas, Danieis, Eduardos, Fátimas estarão por todo o lado, mas sempre prefixados por Dr. É fashion, ‘tá a ver?!

Qualquer dia, a Vogue, a Vanity Fair, a Elle, ou aqueles suplementos de Moda que ao fim-de-semana vêm com os semanários trarão no índice um novo editorial, talvez chamado “Conselhos Académicos”. As queridas dessa altura, sedentas, desejosas, até sôfregas por descobrir as últimas novidades da moda universitária, rapidamente se manterão, por vias intelectuais, informadas acerca do assunto. Ah, surgirão mais Consultores de Moda, isso é verdade, nem tudo são desvantagens: haverá mais emprego!

Enfim, é pena que muitas pessoas não se graduem por gosto e cada vez mais haja nos bancos das universidades aquela franja social, desprovida de carácter, que só se importa com as aparências. Aquele ditado, “O porco, só depois de morto é que se sabe o que está lá dentro” aplica-se de feição a estas gentes, pois só com o tempo é que se percebe que o tal Dr. ou Dra que antecede os seus nomes foi comprado numa universidade privada. Sim, acho que vamos chegar a um ponto em que o mercado de trabalho estará entupido de pessoas incompetentes que se licenciaram porque afinal estava na Moda! Pode ser que um dia ou até na próxima estação não só as tendências tonais dos tecidos mudem, como também as tendências académicas.

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