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Category Archives: Crónica

Por Nuno Joya de Noronha

 

Quer casar com uma mulher deslumbrante? Quer figurar em capas de revistas? E quer ter um carro topo de gama e uma casa com vista para o mar?

Algures ao largo da Somália, dezenas de barcos são desviados todas as semanas por inimputáveis criminosos. Seguem-se os habituais pedidos de resgate e o consequente enriquecimento de piratas que começam a ganhar auréolas e fama de heróis.

Com esse dinheiro conquistam mundos.

É o Golfo de Áden ou agora já chamado de Éden, percebe-se porquê, o palco das tomadas de assalto à James Bond. Chegam em lanchas ultra rápidas e atacam com bastante charme. Eles conquistam. Os piratas somalis parecem golpear com uma impunidade crescente, agarrando tudo, desde iates, passando por cargueiros com armamento de guerra, até petroleiros. E quando se fala em petróleo, há confusão. Aliás, já não houve umas guerras por aí à volta do tal ouro negro?

Quem anda irado com tudo isto são as duas maiores potências militares, a Rússia e os Estados Unidos. Só depois, é que o resto do mundo se pode queixar.

Os novos James Bonds exigem, claro, milhões de dólares para libertarem o pescado. E é-lhes pago. Colaborar, quer dizer, cooperar, não, não, o que quero dizer é que pagar resgates é mesmo interessante. É a solução para o problema. 

De facto, estes piratas são muitíssimo sofisticados. Senão vejamos: trabalham em equipa, escolhem os seus alvos, embora tudo o que venha à rede seja peixe (e barcos de alta patente), e ainda têm um porta-voz. Um assessor! Não venham cá com coisas, eles são mais metódicos do que muitas forças políticas.

Por outro lado, as pessoas gostaram tanto do primeiro filme Piratas das Caraíbas que não bastou esse, já segue em trilogia. E a saga promete. Quem conhece diz que rendeu imenso dinheiro, portanto, mais uma vez se percebe que os piratas são idolatrados. Enfim, ser pirata está, indubitavelmente, na moda.

Espera-se é que esta saga, a dos somalis, acabe rápido, mas enquanto for fashion ser pirata, é bom que quem não queira ficar nas mãos deles mude rapidamente de trajectória. O Índico não está para brincadeiras. A máfia oceânica anda em grande.

Mas o pior de tudo isto é que no país deles só uma pessoa parece odiá-los, o Senhor Presidente. Parece, foi isso que eu disse! É que os Senhores Piratas são adorados: têm casas luxuosas, carros estupendos e resmas de mulheres maravilhosas à porta. Têm ainda free passes à borla para todas as festas in da Somália. Ouvi dizer até que comem caviar e bebem espumante ao pequeno-almoço.

Com tudo isto, até eu me vou mascarar de pirata lá para o Carnaval. Preciso de uma namorada deslumbrante e não me apetece andar à procura.


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Por Nuno Joya de Noronha
 
            Nos tempos que decorrem ou rolam, depende de si, leitor, os alunos só pensam em sair de casa, viver fora das saias da mãe e/ ou sair debaixo dos olhos do pai. “Oh mãe, se não entrar naquilo que quero, eu depois, no ano seguinte, mudo, não se preocupe!”. As mães, como se pudessem alguma vez na vida deixar de se preocupar com os seus bebés, engolem em seco, torcem o nariz e vá lá, até o pescoço. Levantam-se-lhes as bochechas e, simultaneamente, encolhe-se-lhes a testa, mas não há nada a fazer: a licenciatura está na moda e pronto!

Hoje em dia, tirar uma licenciatura é bonito, fica bem, os papás gostam, os vizinhos invejam e os avós incham de orgulho, “ ai que o meu menino é tão inteligente”!

Por outro lado, agora que o estado comparticipa tudo, ajuda aqueles que precisam e até aqueles que não precisam mas fingem precisar, todos os jovens vão para ou vão parar à Universidade. É bom, é realmente muito bom, chega a ser uma incontestável verdade! Mas daqui a uns tempos não temos operários da construção civil ou mesmo o tão agradável e celestial pão que vem parar à porta de nossas casas, por meio de alguém que nunca vimos, mas a quem passamos cheques no final de todos os meses, vai deixar de nos brindar com o seu fabuloso e intenso cheiro matinal.

Ora bem, isto dá que pensar: no futuro, os quadros profissionais de alto gabarito (ou não) vão estar preenchidíssimos, para não dizer preenchidérrimos, porque não existe. Mas seguindo este raciocínio, vamos deixar de ter os nossos habitats naturais, obras públicas, porque ninguém estará habilitado para as construir… Na verdade, a mão-de-obra estará tão cara, pela hora da morte, se nessa altura ainda existir a expressão, que o Orçamento de Estado deixará de suportar essa tamanha despesa. O nosso governo corta em tudo!

Mas como está na moda ser licenciado, afinal é chique, o importante é tirar esse grau académico. Doutores Albanos, Beatrizes, Cristinas, Danieis, Eduardos, Fátimas estarão por todo o lado, mas sempre prefixados por Dr. É fashion, ‘tá a ver?!

Qualquer dia, a Vogue, a Vanity Fair, a Elle, ou aqueles suplementos de Moda que ao fim-de-semana vêm com os semanários trarão no índice um novo editorial, talvez chamado “Conselhos Académicos”. As queridas dessa altura, sedentas, desejosas, até sôfregas por descobrir as últimas novidades da moda universitária, rapidamente se manterão, por vias intelectuais, informadas acerca do assunto. Ah, surgirão mais Consultores de Moda, isso é verdade, nem tudo são desvantagens: haverá mais emprego!

Enfim, é pena que muitas pessoas não se graduem por gosto e cada vez mais haja nos bancos das universidades aquela franja social, desprovida de carácter, que só se importa com as aparências. Aquele ditado, “O porco, só depois de morto é que se sabe o que está lá dentro” aplica-se de feição a estas gentes, pois só com o tempo é que se percebe que o tal Dr. ou Dra que antecede os seus nomes foi comprado numa universidade privada. Sim, acho que vamos chegar a um ponto em que o mercado de trabalho estará entupido de pessoas incompetentes que se licenciaram porque afinal estava na Moda! Pode ser que um dia ou até na próxima estação não só as tendências tonais dos tecidos mudem, como também as tendências académicas.

No passado dia 14 de Novembro, Mia Couto contou ao Mundo a indignação de um povo. Numa crónica publicada no semanário moçambicano SAVANA, o escritor questiona ironicamente a possibilidade de um Obama em África.

 

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